Histórias Confessas



Inspiração do texto : Survivor – Clarisse Falcão
Pare de dizer que sente minha falta, de escrever para mim ou tentar concertar o que tínhamos. Pare de mentir para mim, achar que sinto sua falta ou que quero te ver. Pare de achar que sua ausência me dói, que choro por nosso relacionamento acabado ou que simplesmente penso em você. Pare de achar que não consigo ser melhor sozinha do que era quando estava ao seu lado, sendo sufocada por sua personalidade espaçosa. Apenas pare, já está se tornado patético.

Aceite que eu estou bem melhor agora, sem você. Que estou feliz, realizada e radiante. Que tenho orgulho de minhas escolhas e de minhas conquistas. Você pensou que eu ficaria fraca sem você? Pois hoje estou mais forte. Imaginou que iria me afundar em lágrimas por te ver partir? Que me destruiria por você ou seria corrompida pela saudade do seu ser? Que gritaria para o mundo todas as partes podres em sua personalidade? Meu querido, eu sou melhor do que isso.

Assumo que senti sua falta por um ou dois meses. Você, mesmo sendo um idiota, era importante para mim. Por um tempo fui a garotinha de coração partido que você imaginou que eu seria. Chorei, sofri, pensei no que teria dado errado. Até me culpei por nosso tão repentino término. Mas um dia acordei, sacudi a poeira e me levantei do chão. Percebi a pessoa incrível que sou e aprendi a amar todos os meus lados. Fui mais longe do que imaginei que chegaria. Parei de me subestimar. Cresci de um modo que nem eu mesma imaginava ser possível, e me tornei a sobrevivente de quem tenho tanto orgulho.

E hoje posso dizer que desde que você se foi minha vida está muito melhor. Realizei sonhos que há muito tempo tinha desistido de sonhar, cortei o cabelo do jeito que sempre quis, parei de roer as unhas e até doei sangue, mesmo tendo medo de agulhas. E, cá entre nós, torço para que você consiga ser feliz. Que procure a ajuda que precisa e se torne alguém com quem valha a pena estar. Torço para que você tenha orgulho de si mesmo e que aprenda a conviver em sociedade, com respeito e compaixão.  Que realize aquele sonho antigo e conquiste seu lugar no mundo. E que consiga sobreviver sem mim do mesmo modo que eu sobrevivi sem você.
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Hoje a lua está linda, e eu não consegui me impedir de pensar em você. Então, por todas as vezes que você me fez sorrir, que cuidou de mim como ninguém mais sabia cuidar; por todos os momentos em que eu podia sentir uma pequena fagulha do amor que você dizia sentir por mim, mesmo que elas desaparecessem a cada briga; por todas as vezes que você foi tudo o que eu precisava, me ouvindo, me abraçando, ou simplesmente estando ali. Por todas as coisas boas que já tivemos, eu me permito escrever um último texto para você.

Você me fez muito mal, e ainda faz. Acabou comigo de um jeito que ninguém havia conseguido, e mesmo assim eu sinto falta da tua presença. Submerso em toda a raiva, nojo e repulsa que sinto, ainda acho espaço para sentir saudades. Não entenda mal, não sinto falta de todas as brigas, nem de tudo o que veio depois, mas sim daquela amizade que um dia tivemos. Você foi meu “quase-melhor-amigo”. Era pra você que eu queria ligar no fim do dia, você que me acalmava quando o mundo parecia demasiadamente pesado. Eu confiava total e inteiramente em ti, e acho que foi isso o que me magoou tanto. Mas dessa vez não quero escrever para te mostrar os estragos que suas decisões tiveram em minha vida. Há um ano, eu mandei você ir se ferrar, então acho que é hora de fazer diferente.

Assumo que sua amizade foi uma das melhores que já tive. Você me entende como ninguém mais consegue, e sabe exatamente o que dizer para resolver todos os meus dramas intermináveis. Nossas conversas nunca acabavam, e os assuntos sempre foram os mais loucos possíveis. Sinto falta de falar sobre a lua contigo, de discutir as mazelas da humanidade ou apenas falar sobre meu dia. Sinto falta daquela felicidade que, embora não esteja vinculada a você, eu já não tenho mais. Eu realmente te odeio, e mesmo assim consigo ter uma pontinha de saudade de tudo o que um dia tivemos. É loucura?

Quero que você seja feliz sabe? Que melhore a pessoa que você é, e pare de tentar ser alguém que não condiz com o que sei que existe em você. Quero que encontre uma garota que goste de ti, e que seja melhor para ela do que um dia foi para mim. Repense suas atitudes, mude suas posturas e pare de ser tão pessimista. Tente ser alguém de quem você se orgulharia.  Seja feliz. Não por mim ou por qualquer outra. Seja apenas feliz por você. Sonhe alto, e tente realizar todas as coisas que podem te fazer bem. Tenho certeza que você consegue. E não me procure, pois ainda estou me curando de toda a energia terrivelmente negativa que você trouxe para minha vida. Essas são as últimas palavras que me permito dedicar a você. A partir de agora, a minha história me pertence, e a ninguém mais.

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Writing Prompt são propostas de escrita com o objetivo de desbloquear o processo criativo, por meio de um tema 'aleatório'. Vou ser bem sincera com vocês e dizer que não tenho escrito por pura falta de criatividade, então talvez faça bastante writing prompts por aqui. Espero que gostem, e adoraria se me mandassem sugestões de temas sobre os quais eu possa escrever. Vocês nem imaginam o bem que me fazem com visualizações ou comentários carinhosos. Adoro vocês. Mas agora vamos ao tal texto maluco escrito por um bolo.

Mudanças
No inicio, havia apenas o mais belo nada. Era um dia como qualquer outro, o céu se tingia com as pálidas cores da manhã, os pássaros confidenciavam seus sentimentos à brisa suave, pessoas andavam por calçadas, alheias à qualquer coisa que não seus pensamentos. Em uma cozinha, escondida dos olhares menos atentos, a mágica estava prestes a ter seu início.
Aos poucos, sobre os cuidados de mãos grandes, embora delicadas, fui me formando. Alguns ovos, farinha, chocolate e baunilha. Fui me tornando algo a mais, algo com um cheiro consideravelmente bom, algo que se diferenciava do nada que antes havia naquele recipiente. O mágico me molda à sua vontade, adicionando ingredientes e fazendo misturas delicadas e precisas. Quando sou colocado de lado, sei que não poderia ser mais feliz. Amo minha textura, meus cheiros e sabores, as bolhas de ar que rompem minha superfície, meu formato indefinido, minha cor pálida como o céu de inverno. Tudo o que me torna quem sou, e que fico feliz em aceitar ser.
Então, em um inesperado golpe do destino, vejo meu mágico se aproximando de meu local de descanso. Ele me toma em suas mãos, e me vira em um novo recipiente. Um lugar frio, metálico, untado com manteiga e farinha, e que nada se parece com meu antigo e amado lar. Sou transportado para perto de um grande quadrado espelhado, que se abre e me engole.
E neste momento, tudo o que há é o calor. A temperatura alta em nada se parece com o agradável clima exterior, e a porta pela qual entrei se fecha lentamente. Aos poucos, tento me acostumar com o desconforto gerado pelo repentino aquecimento, e estou quase me sentindo confortável quando sinto algo estranho em meu interior. Sinto-me aquecendo, e perdendo minha textura tão amada e agradável. Minhas bolhas rompem minha superfície de modo doloroso, e me torno cada vez mais denso e assustado. O medo me consome plenamente. Tenho medo do que está acontecendo a mim, do que posso vir a me tornar. Eu estava tão confortável em minha antiga forma, por que o mágico tenta me mudar? Ora, se eu era tão belo com todos os meus detalhes amados, por que tenho de mudar? O calor é insuportável agora, meu corpo está mudando totalmente. Minha cor está mais escura, minha textura é densa e pesada, meus cheiros mudaram, e estou perdendo minha capacidade de adaptar meu formato ao recipiente que for colocado. Tudo está se transformando, e tenho medo do que me tornarei quando esse sofrimento acabar. E se me tornar algo que não gosto? E se nunca mais for feliz como era em minha antiga vida? Com certeza, não sou mais tão bonito e nem de perto tão especial, mas e se me tornar tão feio e comum, que nem eu mesmo serei capaz de amar-me?
Quando estou prestes a deixar as lágrimas rolarem, a porta se abre. Mãos enluvadas me salvam do calor, e me levam para uma bancada, onde lentamente sinto o calor se esvair de meu corpo. Estou quase em temperatura ambiente quando o mágico resolve aplicar-me mais transformações. Ele retira meu corpo da forma onde fui colocado anteriormente e me deixa completamente desprotegido em minha nudez involuntária. Ele me veste com cremes e coberturas de cheiro espetacular e decora-me com amor e paciência. Sou colocado sobre uma travessa bonita, e levado mais uma vez para o desconhecido. O mágico me deixa em um lugar bonito, onde posso ver pessoas de todas as formas, onde posso ver os pássaros que cantam para a brisa e as cores, agora vibrantes, do céu. Sei que há um espelho em minhas costas, mas tenho medo de olhar e descobrir no que me tornei.
Atrevo-me a olhar depois de muito tempo, quando a curiosidade já não pode ser abafada. Quão grande é minha surpresa quando, no lugar do que esperava ver, se reflete um bolo ainda mais belo do que eu era quando cru! Minhas coberturas se encaixam perfeitamente, minha textura é linda e sou exatamente o que sempre quis ser, mas nunca tive coragem de admitir. Percebo que todas as mudanças que tanto me assustaram, me tornaram ainda mais especial, e que foram necessárias para que eu pudesse me tornar melhor. Talvez, eu nunca tenha sido verdadeiramente feliz, até perceber que era incompleto e interminado. Agora, olhando para o reflexo de meu novo ‘eu’, posso compreender o quão importantes são as mudanças. Me assusta pensar que eu poderia ter passado toda minha vida imaginado ser feliz, quando tudo o que eu tinha era um enorme comodismo, que quase destruiu todas as minhas chances de ser completo e feliz.
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As boas mulheres da China - Vozes ocultas

Xinran
Ano:  2002
Páginas: 252 
ISBN: 
8535910743
Editora: Companhia de Bolso
Pontuação: ♥♥♥♥♥
Entre 1989 e 1997, a jornalista Xinran entrevistou mulheres de diferentes idades e condições sociais, a fim de compreender a condição feminina na China moderna. Seu programa de rádio, 'Palavras na brisa noturna,' discutia questões sobre as quais poucos ousavam falar, como vida íntima, violência familiar, opressão e homossexualidade. Xinran colheu inúmeros relatos de mulheres em que predomina a memória da humilhação e do abandono - estupros, casamentos forçados, desilusões amorosas, miséria e preconceito. São histórias como as de Hongxue, que descobriu o afeto ao ser acariciada não por mãos humanas, mas pelas patas de uma mosca; de Hua'er, violentada em nome da 'reeducação' promovida pela Revolução Cultural; da catadora de lixo que impôs a si mesma um ostracismo voluntário para não envergonhar o filho, um político bem-sucedido; ou ainda a de uma menina que perdeu a razão em conseqüência de uma humilhação intensa.

Sabendo do meu amor completo por jornalismo e feminismo, uma amiga me indicou e emprestou o livro (obrigada Mari!!). Devorei as páginas em um dia, e quando o último ponto final fez sua aparição eu sentia que precisava compartilhar essa narrativa com o máximo de pessoas possíveis. Primeiro, As boas mulheres da china é um livro ferozmente pesado. A delicadeza sutil que a autora usa em sua narrativa faz bem seu papel de amenizar a dor e o sofrimento que o livro traz em sua constituição. Mas a dor contida nos relatos de mulheres reais precisa – e é – sentida em cada palavra.

 Xinran, uma jornalista chinesa, apresentadora de um programa de rádio pioneiro em “assuntos femininos” vive em uma sociedade moldada por costumes patriarcais, que foi assolada pelas inúmeras revoltas e revoluções que ocorreram no país no contexto dos anos 60. A feminilidade começa a ser discutida, mesmo que todo o aspecto midiático sofra com forte censura do Partido. E é por meio de palavras na brisa noturna, que Xinran passa a se questionar sobre “o quanto vale uma mulher chinesa”.

Os relatos coletados pela jornalista durante anos se transformam, então, nessa obra forte, tal qual as mulheres que representa. São histórias de violência, humilhação, estupros, dores e feridas que não cicatrizam com o tempo.  Saber que cada capítulo é verdadeiro, que cada gota de sofrimento é real, dói de um modo inexplicável. Houve momentos em que tudo o que eu queria era largar o livro, por puro medo do efeito que teria sobre mim, mas não consegui me obrigar a abandonar Xinran e as mulheres que o mundo esqueceu. Dói sentir. Dói se identificar. Dói conhecer essas histórias e essas mulheres que por anos foram consideradas "mulheres más".

Acho que nunca seria capaz de traduzir tudo o que senti com esse livro, e nem me atreveria a tenta-lo. Portanto, apenas digo que é um livro pesado, com toda a delicadeza e força que só mulheres sabem ter. É uma leitura cheia de lágrimas, de apertos no coração, e de compreensão silenciosa. São histórias de mulheres que sofrem, que choram e que amam.
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Aspirante a escritora, apaixonada por livros e sonhadora profissional.

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